ESCOLA SEM PARTIDO E A CAÇA ÀS BRUXAS



ESCOLA SEM PARTIDO E A CAÇA ÀS BRUXAS

 

Escola Sem Partido e a caça às bruxas

Escola Sem Partido e a caça às bruxas

Está dada a largada a uma verdadeira caça às bruxas. O movimento Escola Sem Partido já escolheu quem são as bruxas do século XXI: Os professores! Os professores nesta quase segunda década do século XXI foram eleitos como os doutrinadores marxistas leninistas, comunistas, blasfemadores, pervertidos, esquerditas que vão destruir a família tradicional brasileira.

Tudo começou com o advogado Miguel Nagib. Em 2003 sua filha chegou da escola dizendo que seu professor de História havia comparado Che Guevara a São Francisco de Assis. Na oportunidade, o docente discorria sobre abrir mão de tudo por uma ideologia. Havia afirmado que Guevara em 2004, largou tudo em nome da ideologia política. Já São Francisco largou tudo em nome da ideologia religiosa. Eis que, diante desta lógica, Nagib disparou: “As pessoas que querem fazer a cabeça das crianças associam as duas coisas e acabam dizendo que Che Guevara é um santo”1 (SIC). E assim nasceu o movimento Escola Sem Partido.

Em 23/03/2015, o deputado Izalci (PSDB/DF) apresentou o Projeto de Lei nº 867/2015, que institui o “Programa Escola sem Partido”. A partir daí o Movimento que defende esta ideia ganhou força e se espalhou por diversos Estados e Municípios. No site do momento há, inclusive, um modelinho para que vereadores e deputados estaduais apresentem em suas localidades.

Porém, desta vez não quero discutir sobre a lei, em si. Isso já tenho feito em vídeo. O vídeo em que discuto cada um dos pontos do projeto de lei pode ser acessado neste link: https://goo.gl/THXzcs.

Escola Sem Partido e Sem noção

Em busca de uma pseudo-neutralidade, pais e alunos que possuem uma tendência mais conservadora, estão aderindo à discursos de políticos religiosos e de liberais-conservadores, perseguindo professores.

Políticos ligados a concepções religiosas, tais como Marco Feliciano (PSC-SP), Magno Malta (PR-ES); Políticos liberais-conservadores como Izalci (PSDB/DF), Rogério Marinho (PSDB-RN) e os Bolsonaros, bem como o artista como Alexandre Frota, estão entre os que divulgam com muita frequência os preceitos do movimento Escola Sem Partido, influenciando uma grande parte da sociedade a se voltarem contra os professores.

Na sua pauta de seus discursos, reivindicam a neutralidade do professor. Como se de alguma forma fosse possível obter tal neutralidade em qualquer forma de relacionamento social. Impõem o que chamam de ideologia de gênero e impedem que professores levem qualquer tipo de discussão relacionado a gênero, sexualidade ou questões políticas. Esquecem que o espaço escolar é o palco onde ocorrem as discussões de todos os tipos, pois é assim que adquirimos o conhecimento e aprendemos a conviver com diferenças. É na dialógica que nos fazemos entender e trazemos a luz do discernimento e do bom senso.

 

Neste momento em que discutimos a Base Nacional Comum Curricular, políticos alinhados ideologicamente (inclusive com seus representantes no Ministério da Educação – como o próprio ministro Mendonça Filho) se debruçam sobre os eixos conceituais de forma com que toda e qualquer forma de indução aos temas elencados acima, sejam excluídos do currículo. Novamente assistimos a escola sendo aparelhada em virtude de uma (falsa) doutrina moral-religiosa, que tem como objetivo preparar o aluno para seguir ordens e ser uma pessoa dita “de bem”.

 

Escola com partido e com ideologia

Muito se engana aquele que acha que o movimento Escola Sem Partido seja realmente um movimento sem partido. Não precisa ser muito inteligente para ligar os pontos acima, apenas com os poucos exemplos de nomes e partidos citados. Você pode fazer uma busca rápida e começar a ver quem apresentou este projeto nas diferentes assembleias legislativas e câmaras municipais e ver o partido e a condição ideológica desses personagens. Rapidamente você vai entender que eles possuem um partido.

Voltando a discussão inicial deste texto, o que se observa é que foi dada a largada à caça às bruxas no século XXI. Aqueles professores que se propõem a discutir questões étnicas, africanidades, políticas ou de gênero são “denunciados” ao movimento Escola Sem Partido. Também se intensificou nos últimos tempos o ataque indiscriminado aos professores, seja por qualquer motivo2. Seguem alguns poucos exemplos extraídos da página do movimento no facebook:

 

Escola sem partido

Escola sem partido

 

 

O site do movimento Escola Sem Partido possui, inclusive, uma seção própria para que seus seguidores enviem provas materiais de professores “doutrinando” seus alunos.

 

Por uma escola democrática e livre

Pode ser que muita gente esteja apoiando este movimento por pura ingenuidade. Por muito tempo a escola se colocou como algo a parte da sociedade. O que acontecia na sociedade não se refletia na escola. As opiniões dos nossos alunos eram reprimidas, assim como todo e qualquer conteúdo que tivesse relevância social (a isso damos o nome de escola tecnicista, algo que o movimento Escola Sem Partido defende). Talvez a escola precise abrir mais os seus portões para que a comunidade possa vivenciar a escola e realmente conhecer a sua estrutura.

É óbvio que ninguém quer uma escola político-partidária. Espero que você não esteja pensando que eu faço defesa de qualquer partido que seja. O que defendo é a pluralidade de ideias e de concepções. Ou seja, defendo que professores e alunos possam se envolver em uma grande discussão sobre os problemas da sociedade, fazendo uso de diferentes conteúdos para desenvolver suas faculdades cognitivas, o pensamento crítico e as competências e habilidades que se requer para um cidadão e um trabalhador neste século.

Escola Sem Partido e o ponto positivo

Se você pensa que sou só críticas ao Escola Sem Partido, engano seu. O movimento tem sim um aspecto muito positivo. Ela lança ótica sobre um grande problema da educação: a doutrinação. Infelizmente muitos professores fazem uso da audiência cativa dos seus alunos para imporem as suas concepções ideológicas e calam os alunos que se manifestam contra. Eu não saberia quantificar esses professores, mas é sabido que existem, e não se faz nada para conter.

Antes de qualquer coisa, é preciso lembrar que a Constituição da República, no artigo 206, III e a LDBEN nº 9.394/1996, artigo 3, II, III e IV, garantem a liberdade de ideias e vetam qualquer forma de proselitismo (Art. 33).

Porém, várias vezes já presenciei casos explícitos de doutrinação, tais como:

  • Orações antes de iniciar a aula.
  • Frases bíblicas na lousa, forçando os alunos a copiarem.
  • Imposição ideológica de que um Estado liberal é melhor do que um Estado de Bem Estar Social.
  • Imposição de festas religiosas.

Curiosamente, essas formas de doutrinação não são denunciadas no site do movimento Escola Sem Partido. Talvez por que as pessoas não vejam isso como doutrinação (já que é um conceito muito controverso), ou por que talvez seja conveniente. Ou, ainda, por que talvez pimenta nos olhos dos outros seja refresco, não?

Há algum tempo venho discutindo a seguinte proposição: “o Brasil vai eleger, democraticamente, uma ditadura. E não será a militar, mas sim religiosa”. A cada dia que passa, vejo este futuro mais próximo.

 

Ivan Claudio Guedes
Geógrafo e Pedagogo
[email protected]

 

Notas:

Meus sinceros agradecimentos aos amigos Prof. Omar de Camargo e Prof. Fábio Luiz de Souza pela leitura crítica.

  1. http://brasil.elpais.com/brasil/2016/06/23/politica/1466654550_367696.html
  2. https://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/professores-dizem-sofrer-censura-de-pais-alunos-nas-salas-de-aula-21420798

GUEDES, I.C. Escola Sem Partido e a caça às bruxas. Gazeta Valeparaibana. Ed. 116. Ano X. Disponível em: http://www.gazetavaleparaibana.com/116.pdf; jul, 2017, p.10.

 

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About the Author

Ivan Guedes

Prof. Dr. Ivan Claudio Guedes, Geógrafo e Pedagogo. Professor de Geografia na educação básica e Docente do curso de Pedagogia da Faculdade Progresso. Coloca todo o seu conhecimento a disposição de alunos acadêmicos, pesquisadores, concursantes, professores, profissionais da educação e demais estudantes que necessitam ampliar seus conhecimentos escolares ou acadêmicos.

Comments

  1. Doutrinadores esquerdistas travestidos de professores serão expurgados de nossas escolas e universidades

    Escola sem partido jááááááááá

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