PAPAI NOEL EXISTE?



Já  faz alguns anos (muitos, é bem verdade), que deixamos de acreditar em papai Noel. Mas de qualquer forma, é gostoso relembrar o tempo de criança em que acreditávamos que os presentes eram trazidos pelo bom velhinho num trenó, puxado por renas em quanto a neve caía. Neve caía? Nunca vimos a neve, nem sabemos como ela é, mas em nosso imaginário ele vinha com a neve. E também descia pela chaminé. Que chaminé? O máximo que tínhamos era um fogão e na maioria dos casos à lenha. Fogão à gás era um luxo ainda inacessível. Doce ilusão de criança essa de acreditar em papai Noel.
Com certeza muitos dirão que é apenas um apelo ao consumismo e acreditamos que, de fato, pode até ser isso mesmo. Outros poderão dizer que não devemos iludir as crianças com essas balelas e dizer logo que papai Noel não existe e que isso é que é bom para as crianças, pois não devemos criar ilusões e que as crianças devem desde cedo aprenderem que a via é dura e implacável.
Pois bem, a nossa geração foi criada à sombra dessa ilusão e outras tais como Saci-Pererê, Boitatá e sereias. Imaginávamos os monstros que havia nas profundezas do mar e que outras criaturas poderiam até, imagine só, voar. Tínhamos nossos heróis, Capitão Marvel, Capitão Sete e Super Homem. Os brasileiríssimos Vigilante Rodoviário e seu cão Lobo e o Falcão Negro, ambos exibido numa televisão em branco e preto sem o glamour de hoje em dia das televisões em 3D. Não havia vídeo games, jogávamos taco, bola, bolinha de gude, de pega-pega, cabra-cega e outras tantas brincadeiras.
Foi um tempo onde os pais eram a figura máxima de responsabilidade, nossos primeiros educadores. Íamos à igreja, rezávamos e em nossas orações pedíamos para sermos bons e que Deus ajudasse nossos pais para que eles pudessem nos encaminhar para um bom caminho. Desta maneira, se fôssemos bonzinhos, no final do ano papai Noel nos traria um presentinho. Não era uma vida fácil, tudo era conseguido com muito esforço e desta forma o presentinho representava o prêmio pelo objetivo atingido.
Numa comparação, ainda que superficial, com os dias de hoje percebemos que muita coisa mudou. Podemos arriscar que tudo mudou. Os pais não são mais o exemplo dos filhos, pois foram substituídos pelos programas de televisão (colorida e em 3D), pelas notícias de que quem rouba dificilmente vai preso, mas ninguém diz que não vai preso aquele que é poderoso (normalmente os políticos e menores de idade). Em outros casos os filhos são arrendados para o Estado que por sua natureza corrupta os coopta na esperança de se manterem no poder indefinidamente. Os pais não são mais os primeiros educadores e com a ajuda do Estado essa responsabilidade torna-se, sob a égide legal, função da escola.
A impressão que nos dá é que as crianças não oram mais para serem boazinhas, mas para conseguirem ganhar muito dinheiro e não importa de que maneira isso irá acontecer. Não existe mais a ilusão de que ser bonzinho, ao final do ano, resultará em ganhar um presentinho. Hoje se ganha presentes a qualquer hora do dia. Não se premia por ter sido bom ou tirado uma boa nota na escola. Hoje, as crianças, em seus jogos violentos, matam e quanto mais sangue espirrar mais eles vibram. Não brincam na rua, pois podem ser atropelados ou sequestrados. Não existe mais a figura do professor como aquele poderia nos enviar a um caminho, através do conhecimento, melhor. As crianças de hoje parecem não ter ilusão. Não acreditam mais em Saci-Pererê e em outras lendas.
A violência cantada em verso e prosa pelas mídias se encarregou de destruir a inocência. Pais apressados se esquecem do filho dentro dos carros, nas creches, nas escolas e nas suas vidas. Esquecem que são pais, esquecem que deveriam dar o exemplo, o bom exemplo. Mandam suas crianças à igreja para rezarem ao Todo Poderoso que cuide delas e com isso esperam amenizar a culpa em seus corações. Enviam suas crianças à escola na esperança de que os professores se sensibilizem com os infortúnios deles e eduquem essas crianças, pois estão apressados e preocupados demais para caminhar junto com os filhos.
Essas crianças são frutos de uma sociedade canibalizada (em algumas canabislizada) onde a preocupação consigo transcende à preocupação com o outro. É indiscutível a onda crescente de violência dentro e fora das escolas. Acreditamos que a violência é consequência do estado das coisas atualmente, parece-nos que a substituição das palavras pela violência é uma consoante nos dias atuais e o ambiente escolar acaba sendo vítima disto.
O quadradinho de oito, funks desprovidos de qualquer sentido moral ou ético, músicas com letras com duplo sentido, novelas e programas ao vivo em que a promiscuidade é levada aos extremos e sendo considerada com nota relevante para se atingir o sucesso estão a anos-luz daquilo que considerávamos, enquanto crianças, vergonhoso. Mais triste e complicado é ver que os pais dessas crianças também se comprazem neste caminho e considerando como justo deixam que elas se iniciem por esse caminho. Pois bem, essas crianças irão ou vão à escola, trazem consigo um cabedal de conhecimentos desprovido de valores morais. Nota-se pelo linguajar, no uso de palavras de baixo calão no cotidiano e não raras vezes com os professores.
Professores, que muitas vezes advêm dessa massa, não se importam com isso e às vezes, até incentivam. Puritanismo de nossa parte? Talvez, visto que não trabalhamos nossas mentes às portas fechadas. Sempre deixamos a porta mental entreaberta, para que não sejamos surpreendidos com qualquer coisa que possa aparecer. Moralismo? Talvez, novamente pelo mesmo motivo anterior. Saudosistas? Sim, com certeza. Saudades de um tempo em que a criança era criança de verdade, que descobria as coisas do mundo aos poucos e não nas avalanches da Internet onde tudo existe e tudo é possível. Saudades dos avós, dos pais sempre educadores preocupados em nos dar a noção exata do nosso comportamento e que nunca relegaram a quem quer que seja a tarefa de educar-nos. Saudades de acreditar ainda em papai Noel, Saci-Pererê, bicho-papão, fadas e em tantas outras coisas que aos poucos descobríamos que eram somente para nos afastar do mal. Quando descobríamos isso já tínhamos idade suficiente para decidir qual caminho andar.
Hoje em dia exigem que as crianças decidam por elas mesmas qual caminho andar e sem preparação escolhem, sem saber, o caminho mais fácil, pois sabemos que o caminho mais fácil é aquele que seduz, mas elas não o sabem.
Crianças e jovens indisciplinados povoam as escolas por não terem noções simples e básicas de comportamento, mas entendem tudo sobre informática, facebook e outros. Talvez devêssemos mudar a filiação deles no registro escolar para filho da contemporaneidade. Essas crianças e jovens com certeza não mais acreditam em qualquer lenda ou conto de fadas, mas acreditam no poder de fogo de uma arma e até mesmo de seus próprios punhos na resolução de seus problemas sem atinar que apenas estão aumentando os seus problemas.
Não podemos modificar o que já está feito, mas podemos começar um novo começo. Quem sabe ensinar sobre o papai Noel e seu significado e todas as demais lendas e fábulas.
Enquanto isso não acontece, por via das dúvidas, vamos colocar nossa meia na janela para que o papai Noel coloque um presentinho neste final de ano.
Omar de Camargo
Técnico Químico
Professor em Química.

Ivan Claudio Guedes
Geógrafo e Pedagogo.
Articulista e Palestrante.
Especialista em Gestão Ambiental. Mestre em Geociências e doutorando em Geologia.
Para referenciar este artigo:
CAMARGO, O.; GUEDES, I.C. Papai Noel Existe? Gazeta Valeparaibana. Ed. 73. Ano VII. Disponível em: <http://www.gazetavaleparaibana.com/073.pdf>, 2013, p. 9. 

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Ivan Guedes

Prof. Dr. Ivan Claudio Guedes, Geógrafo e Pedagogo. Professor de Geografia na educação básica e Docente do curso de Pedagogia da Faculdade Progresso. Coloca todo o seu conhecimento a disposição de alunos acadêmicos, pesquisadores, concursantes, professores, profissionais da educação e demais estudantes que necessitam ampliar seus conhecimentos escolares ou acadêmicos.

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