GÊNERO NAS ESCOLAS: IDEOLOGIA OU IDENTIDADE?



GÊNERO NAS ESCOLAS: IDEOLOGIA OU IDENTIDADE?

 

Gênero nas Escolas ideologia ou identidadeDiscutir sobre gênero nas escolas não é tarefa fácil. É preciso desconstruir vários tabus e mitos. Via de regra, neste texto não é objetivo apresentar nenhum conceito científico sobre o tema. Esta discussão tratará de proposições sociológicas voltadas a uma urgência social: A necessidade de se discutir gênero nas escolas.

De um tempo para cá, a discussão sobre a necessidade (ou não) de se trabalhar com o tema “gênero nas escolas” tomaram grandes proporções. Essas discussões vieram acompanhadas de diferentes concepções e ideologias sobre este tema.

De um lado temos conservadores, religiosos sobretudo e liberais. Entendem a escola enquanto um espaço de reprodução social e que, portanto, deve preparar o sujeito para o mercado de trabalho, através da transmissão de conteúdos “neutros”.

Do outro, uma vertente progressista. Afirma que a escola é um espaço de transformação social e deve trazer à sala de aula, as necessidades da sociedade. Afim de compreendê-la e transformá-la. Pois bem, quem costuma ler o que escrevemos neste espaço sabe muito bem que minha tendência pedagógica e minha concepção de sociedade vão muito mais para esta apresentada do que sobre aquela. Se quiser compreender mais a nossa visão de educação, pode consultar o texto: “De escola reprodutora a escola transformadora”, publicado na Gazeta Valeparaibana de Agosto de 2014.

Recentemente apresentamos uma discussão no Programa E Agora José (Programa do dia 19/06/2016) uma discussão um pouco mais aprofundada sobre essa questão. Você pode acompanhar o podcast do programa intitulado: “Diversidade e igualdade de gênero na escola” no Youtube.

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Mas afinal, qual é a necessidade de discutir gênero nas escolas?

Entendemos que a escola, além de preparar o sujeito para o mercado de trabalho, também deve prepará-lo para a vida, sobretudo em sociedade. Se hoje temos uma sociedade no século XXI, que prima pela liberdade (não confundir com liberalismo, nem com libertinagem) e pela igualdade entre as pessoas, ora, nada mais importante do que trazer essas discussões para a escola, mas por quê?

Ao mesmo tempo em que possuímos parte de uma sociedade que luta pelo seu espaço, temos também parte da sociedade que luta pelos valores morais impostos por algumas ideologias conservadoras. Tais ideologias pregam, inclusive, a exclusão total (ou até mesmo a eliminação) daqueles que são diferentes dos “valores da família tradicional”. E é exatamente ai que mora o perigo.

Não raro, vimos nos noticiários (e nas “argumentações” nas mídias sociais) que é preciso combater a “ideologia de gênero”. Essa “ideologia de gênero” está fundamentada nas ideias de que querem impor uma “ditadura gay” perante a sociedade, e que deve ser combatida (inclusive com o uso da força). A ideia de que um sujeito possa ser diferente dos padrões estabelecidos por essa parte da sociedade os fazem tremerem de medo (ou de desejo) que seus filhos ou até mesmo sua própria pessoa se torne gay. E é exatamente ai que a incitação ao ódio e à intolerância predomina.

Ora, entendemos que se lutamos por uma sociedade mais justa, menos discrepante e pluralista. Se lutamos por uma sociedade em que as pessoas tenham poder de viver da forma com que lhe parecem ser apropriada. Se lutamos pela igualdade entre as pessoas, independentemente de convicção política, religiosa ou de gênero, e se ao mesmo tempo essas pessoas estão morrendo, sendo excluídas e assassinadas socialmente, porque não se discutir isso na escola? Não é uma das urgências sociais que temos?

Ideologia de gênero Mario Sergio Cortella

Ideologia de gênero Mario Sergio Cortella

A discussão sobre gênero nas escolas

Discutir sobre gênero nas escolas vai além da simples transmissão de conhecimentos científicos acumulados historicamente. Obviamente que é possível (e altamente recomendável) que as ciências biológicas e psicológicas participem dessa discussão. Apresentar a discussão sobre a identidade do sujeito é fazer com que ele olhe para si e se enxergue na sociedade.

A nossa identidade vai muito além das nossas características físicas. A nossa identidade é construída em todos os espaços sociais. A partir das suas múltiplas configurações (família, escola, religião, trabalho, convívio social, etc.). Discutir as diferentes identidades é um ato de promover o respeito pelo que é diferente de ti. É enxergar o outro como ser humano, tanto quanto você.

Quando se colocam a imposição da “ideologia de gênero”, estão cometendo uma grande injustiça e um grande equívoco com o termo, uma vez que a ideologia pressupõe (via senso comum) a imposição de ideias, pensamentos, doutrinas de um indivíduo ou de um determinado grupo, orientado para suas ações sociais e políticas. Neste caso, ninguém está impondo que o mundo deve ser deste ou daquele jeito. A única imposição aqui (se é que é uma imposição) é a imposição do direito pela liberdade pela sua identidade, ou seja, a imposição para que você tenha a liberdade de ser livre (se é que me fiz entender).

Manifestantes protestam contra retirada do termo gênero do plano de educação

Manifestantes protestam contra retirada do termo gênero do plano de educação

A discussão sobre identidade de gênero nas escolas tem como objetivo maior (neste momento da história do presente) desconstruir alguns mitos impostos por um outro tipo de ideologia de gênero, uma ideologia em que homens e mulheres possuem espaços diferentes na sociedade e que, o homem está acima da mulher.

Cartilhas sobre identidade de gênero e ideologia de gênero.

A cartilha “Debate sobre Gênero nas Escolas: e eu com isso?”, elaborada pelo grupo de pesquisa “Avaliação e intervenção psicossocial – Prevenção, Comunidade e Libertação” da PUC-Campinas, apresentam algumas situações, no mínimo, inumanas:

  • Agredida pelo pai por andar de skate;
  • Lésbica, foi estuprada por um homem que disse que iria fazê-la aprender a gostar de homens;
  • Alvo de humilhações e ofensas verbais em sala de aula por outro jovem na presença do professor por ter trejeitos “afeminados”;
  • O marido a proibia de sair com as amigas. Após tentar mais uma vez o término da relação, foi assassinada pelo mesmo.
  • Esfaqueada por um homem que a considerava não humana por ser travesti.

Outra cartilha que me chamou a atenção é a “Você já ouviu falar sobre a ‘Ideologia de gênero’? Conheça esta ideologia e entenda o perigo que você e seus filhos estão correndo!”. De autoria não identificada, mas distribuída amplamente por diferentes movimentos religiosos e conservadores, esta cartilha afirma, dentre outras coisas (para não dizer bobagens) que:

  • A ideologia de gênero afirma que ninguém nasce homem ou mulher. Mas deve construir sua própria identidade, isto é, o seu gênero, ao longo da vida.
  • Todas as crianças deverão aprender que não são meninos ou meninas, e que precisam inventar um gênero para si mesmas.
  • Querem destruir nossas famílias.

Por fim…

Bem, não cabe neste momento querer discutir cada um dos pontos elencados acima. Quanto muito, entendo que já o fiz no decorrer do texto. Porém, o que é preciso reafirmar que ninguém quer destruir a família de ninguém. Muito pelo contrário! o que se espera ao discutir sobre identidade de gênero nas escolas, é evitar que continuem doutrinando pessoas que não entendam as outras pessoas como seres humanos. Que não continuem educando crianças para crescerem entendendo suas esposas como propriedade ou como sua serva. Que não entendam gays, travestis, transexuais, ou o que quer que seja, como uma forma de aberração extraterrestre. Muito pelo contrário, espera-se que entendam todos como seres humanos, dotados de suas individualidades, mas parte da sociedade.

Talvez um dia, quem sabe, esse tipo de discussão só estará nos livros de história. Em que contarão que, antigamente, homens, mulheres, gays, brancos, negros, eram excluídos da sociedade. Pode ser que isso ainda demore muito, mas, na nossa história, tudo é possível.

'Não é o fim da história', diz filósofa sobre ensino de gênero nas escolas

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P.S. Ainda que eu tenha escrito este texto sozinho, sujeitei-me a escrever em segunda pessoal no plural. Já que tenho a consciência de que não estou sozinho nesta luta.

IVAN CLAUDIO GUEDES, 36.

Geógrafo e Pedagogo.

GUEDES. I.C. Gênero nas escolas: Ideologia ou identidade? Gazeta Valeparaibana [online]. São José dos Campos, 01 ago. 2014. E Agora José? – Debatendo a Educação. Disponível em: <http://www.gazetavaleparaibana.com/104.pdf> Acesso em 05 jul. 2016.

 

 

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About the Author

Ivan Guedes

Prof. Dr. Ivan Claudio Guedes, Geógrafo e Pedagogo. Professor de Geografia na educação básica e Docente do curso de Pedagogia da Faculdade Progresso. Coloca todo o seu conhecimento a disposição de alunos acadêmicos, pesquisadores, concursantes, professores, profissionais da educação e demais estudantes que necessitam ampliar seus conhecimentos escolares ou acadêmicos.

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