É LIVRE A MANIFESTAÇÃO DO PENSAMENTO, DESDE QUE PENSE IGUAL A MIM!



 LIVRE A MANIFESTAÇÃO DO PENSAMENTO, DESDE QUE PENSE IGUAL A MIM!

Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade

 
e-livre-a-manifestacao-do-pensamentoAntes de qualquer reflexão, leia o Artigo 5º da Constituição da República Federativa do Brasil: Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato; IX – é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença.
Há algum tempo temos percebido que a intolerância às ideias, às manifestações intelectuais, artísticas e de comunicação tem sido muito constante nas redes sociais. Por muito pouco se condena qualquer pessoa por qualquer pensamento que seja destoante de um pensamento majoritário em um determinado grupo. Em um debate em qualquer lugar, rapidamente se esquecem dos argumentos e partem para a agressão pessoal. Talvez por causa da baixa escolarização e, consequentemente da baixa bagagem intelectual, falte argumentos para travar uma discussão em torno das ideias e se lançam à briga de cães.

A intolerância está presente em todos os grupos sociais. Na família, na escola, nas igrejas, nas empresas, nos sindicatos, nas agremiações, nos partidos políticos, etc. Considerando que o indivíduo ao longo da sua vida tem contato com as mais diversas opiniões e fundamentações, porque mesmo assim a intolerância está muito mais presente do que a tolerância à diversidade cultural e das ideias?
 
Ser intolerante já foi regra social. Até o século XVI ser intolerante era uma virtude. Aquele que era intolerante tinha integridade moral ou firmeza diante dos preceitos morais da época. A tolerância, por sua vez, era vista como uma atitude de impunidade frente ao mal, ou seja, a aceitação de um erro. O cidadão tolerante poderia ser acusado de indiferença religiosa ou de subversão.

Diante de tal sociedade, era comum, portanto, a supressão de toda forma de convicções que fossem diferentes da ideia predominante. Encontra-se na literatura que o ápice dessa intolerância à tolerância foi o episódio da “Noite de São Bartolomeu”, ocorrida em 1572, na França. Na época, o massacre pelo poder real, católico, aos protestantes franceses, gerou milhares de mortes que se iniciou na madruga de 24 de agosto e duraram diversos dias, espalhando-se para outras cidades.

Tal episódio trouxe aos filósofos a tarefa de analisar melhor a tolerância. Um deles foi John Locke (1632-1704) que escreveu a Carta sobre a Tolerância (1689). Neste caso, a tolerância deveria ser a partir das diferenças religiosas e políticas, defendendo o direito dos indivíduos.

Do iluminismo para cá, diversos filósofos, sociólogos e psicólogos passam a escrever em favor da multiplicidade de crenças, valores e opiniões. A literatura decorre em favor dos direitos dos indivíduos e não foi a toa que a Constituição de 1988 trouxe tantas liberdades ao cidadão.

Porém, voltamos ao problema principal. Mesmo diante de diversas legislações e teorias sobre a liberdade do indivíduo, muitas vezes nos colocamos como “donos da razão” e suprimimos o direito do outro. Quando um assunto polêmico ganha visibilidade, tais como a Lei da Palmada, a legalização da maconha, a legalização do aborto, a reforma política, entre outros assuntos, o “espírito medieval” toma conta do debate.

 
O movimento de “caça às bruxas” está tão presente quanto na idade média. É alarmante a quantidade de comentários e artigos de blogues expondo as mazelas alheias. Não bastasse isso ainda temos aqueles pretensos donos do mundo que se acham no direito de intimidar a quem quer que se oponha à sua ideologia.

Dois casos nos saltam aos olhos neste momento: o primeiro é sobre o humorista Gustavo Mendes, que faz uma caricatura da presidente Dilma. Em um evento na cidade de Búzios-RJ, em 15 de junho, o ator fez uma brincadeira com o Pe. Ricardo, e satirizou a presidente. Durante o show foi retirado do palco e agredido pelo assessor do prefeito. No vídeo divulgado na internet o agressor se justifica em nome da igreja e dos bons costumes. O outro caso é do Sr. Alberto Cantalice, vice-presidente do PT e coordenador de redes sociais que criou uma “lista negra” citando pessoas como Arnaldo Jabor, Reinaldo Azevedo, Demétrio Magnoli, Danilo Gentili e Marcelo Madureira, incitando o ódio sobre eles, uma vez que são contra este partido.

Considerados como profetas do caos, pelo petista, esses jornalistas são estigmatizados como sendo contra as cotas sociais e raciais, contra a presença do negro em concursos públicos e etc.

Independentemente de concordarmos, ou não, com o que expressam Gustavo Mendes, Rachel Sheherazade, Paulo Ghiraldelli Jr., Pastor Caio Fábio, Pe. Ricardo, além dos outros já citados, o que interessa é a liberdade de expressão que deve ser mantida. Não concordar e argumentar contra é uma coisa, pedir a cabeça do sujeito é covardia, próprio de quem não tem argumentos.
 
Esse fundamentalismo partidário rasgado e sem bom senso nos leva a crer que estamos diante de um momento perigoso e que poderemos vir a sofrer um duro golpe na nossa frágil democracia. Não se trata de apenas retórica, palavras ditas no calor de uma discussão e sim de um pensamento ideológico insano. Atear lenha onde há brasa e quando queimar se fazer de vítima nos parece um procedimento comum dentre aqueles que querem jogar com o sentimento do ingênuo brasileiro, sempre dispostos a se posicionar do lado que “aparentemente” está mais fraco ou oprimido.

Por fim, vale lembrar, neste caso principalmente aos professores, que as diversas orientações didáticas na literatura (ex. FREIRE, DELORS, MORIN, SAVIANI, LUCKESI, ZABALA, dentre muitos outros), contribuem para um ensino democrático e tolerante. Para a diversidade de ideias e pela livre manifestação do pensamento, ou seja, é na escola que devemos começar a ensinar a tolerância como um conteúdo atitudinal e ser apreendido pela sociedade. Entretanto, é preciso salientar que primeiro nós professores devemos aprender tal conteúdo, uma vez que também carregamos conosco nossas convicções, ideias, pensamentos e valores, e corremos o risco de nos impor tão intolerantes quanto aqueles que citamos.
 
Até quando vamos sofrer com essas ideologias partidárias ou religiosas? Quando iremos crescer e realmente pensar grande, pensar na liberdade de opinião e de expressão? Quando será que veremos saciada a ganância pelo poder por aqueles que deveriam proteger e que na verdade se tornam algozes do povo?

Como diz uma célebre frase de Voltaire “Não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até o ultimo instante teu direito de dizê-la”.
Ivan Claudio Guedes
Geógrafo e Pedagogo
Consultor e assessor pedagógico
[email protected]
Omar de Camargo
Técnico Químico
Professor em Química
[email protected]

 

CAMARGO, O.; GUEDES, I.C. É livre a manifestação do pensamento, desde que pense igual a mim. Gazeta Valeparaibana. São José dos Campos, julho. 2014, p. 9. Disponível em: http://www.gazetavaleparaibana.com/080.pdf. Acesso em: 01 jul. 2014.
 

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Ivan Guedes

Prof. Dr. Ivan Claudio Guedes, Geógrafo e Pedagogo. Professor de Geografia na educação básica e Docente do curso de Pedagogia da Faculdade Progresso. Coloca todo o seu conhecimento a disposição de alunos acadêmicos, pesquisadores, concursantes, professores, profissionais da educação e demais estudantes que necessitam ampliar seus conhecimentos escolares ou acadêmicos.

Comments

  1. Sim, Viviane, temos dificuldade em ouvir uma opinião diferente da nossa. Nossos pré-conceitos estão presentes na nossa cultura. O que precisamos é discutir esse assunto e tentar criar a cultura da tolerância e do respeito.
    Um forte abraço.
    Ivan

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